Artigo escrito pelo Pastor Isaltino Gomes Coelho Filho - Igreja Batista Central de Macapá.
Esta crônica é mais choradeira que outra
coisa. Mas sejam pacientes. Exerçam a misericórdia comigo. Li esta notícia que
reproduzo ipsis literis, do jornal “O Globo”: “A música piorou nas
últimas décadas. O que parece relativo quando dito por um crítico ganhou tons
científicos com um estudo realizado pelo Conselho Nacional de Pesquisa da
Espanha. Pesquisadores, através de programas de computador, analisaram 464.411
músicas populares do Ocidente lançadas entre 1955 e 2010, incluindo pop, rock,
hip-hop, folk e funk. Com os resultados obtidos, avaliaram tendências com o
passar dos anos. As diferentes transições entre combinações de notas diminuíram
de número nas últimas décadas. A variedade de timbres na música pop também caiu
significantemente desde os anos 1960. Sobre este fato, a conclusão dos
pesquisadores é que os compositores tendem a se manter fiéis às mesmas
qualidades de som obtidas anteriormente. O volume, porém, tem aumentado desde
1955, em uma ‘espécie de corrida pela música mais alta’”.
Em outras palavras: o volume de decibéis tem substituído a qualidade. O
sentido da música não está mais na letra nem na harmonia dos sons, mas na
agitação. Isto me parece estar em consonância com a cultura atual em outros
níveis. Nós não nos comunicamos mais cognitivamente, mas gestualmente ou
corporalmente. A qualquer hora em que alguém ligar a televisão verá um grupo se
sacolejando. A cognição cedeu lugar aos sentidos. A razão tem sido posta de lado
em detrimento da sensação. O que importa não é o que se expressa verbalmente,
mas o que se sente.
Sempre ávidos por novidades mundanas, alguns segmentos da igreja embarcaram
nesta tendência. A música evangélica também tem sido empobrecida (e como!) e sua
comunicação maior não está no que sua letra diz, mas no quanto faz as pessoas se
sacudirem. Desta maneira, os sentidos prevalecem sobre a cognição. E quanto erro
teológico se canta! Avalia-se o culto por quanto as pessoas se mexeram, e não
por quanto aprenderam sobre Deus e como isto impactou sua vida. Pensei muito
nisto nestes dias. Preguei duas noites no Congresso Inspirativo da COBAP
(Convenção Batista Amapaense) e nas duas noites ouvi cantar o Quarteto Dom de
Livre, de Campinas, que havia cantado três vezes em minha ex-igreja, a Cambuí.
No domingo pela manhã, o Dom Livre cantou na Central de Macapá. Fiz o que nunca
fizera em 41 anos de ministério pastoral: abdiquei de pregar para eles cantarem.
A pregação foram seus cânticos. Tanto na COBAP como na Central, o auditório
ficou extasiado. O Quarteto cantou hinos compreensíveis e, o que está se
tornando difícil de encontrar, hinos cristológicos. Cristo foi cantado, e não as
sensações do adorador. O foco do culto foi Jesus e não o adorador.
À noite tivemos conosco a irmã Cristina Capareli, que foi membro da igreja.
Seu esposo, militar, foi transferido, há sete anos. O casal aproveitou o feriado
prolongado para vir a Macapá para a filha ver a cidade onde nasceu. Foi outro
grande momento: Cristina não grita, não tremelica a voz, não se pavoneia. Apenas
canta. Não é artista, é serva. Que impacto espiritual ouvi-la em “Cidade
Santa”.
Não se trata de rabugice de velho nem lamúrias de pastor cheirando a
naftalina. Apenas uma constatação: o evangelho está se tornando cada vez mais
matéria de sentimento, e o culto cada vez mais expressão de movimentos. O homem
é o foco do culto. Deus foi glorificado se as pessoas se sentiram bem ou se se
expressaram. Por isso que hoje, quando recebo convite de uma igreja para pregar,
minha primeira pergunta é como é a liturgia da igreja. Muitas igrejas querem um
pastor mais conhecido, para dar notoriedade ao culto e convidam um ou dois
cantores famosos. O que prego não faz diferença. O que importa é que eu vá, pois
sou um pouco conhecido, e isso dá peso ao evento. E segue o culto: um cantor
apresenta uns quatro hinos sem nexo um com o outro e sem conexão com o que
prego. Após a mensagem, mais músicas, porque o investimento no cantor precisa
ser recompensado. O culto vira uma colcha de retalhos com partes que não se
tangenciam. O que o pregador expôs da Palavra de Deus é logo esquecido, porque o
cantor “levanta a galera”. A sensação triunfa sobre a reflexão.
Converti-me numa igreja em que Cristo era pregado com convicção, todos os
domingos. O pastor se chamava João Falcão Sobrinho, e a igreja era Acari, no Rio
de Janeiro. Aprendi a refletir sobre a Palavra de Deus e a procurar
internalizá-la. Minha família não era crente e eu era um menino de catorze anos.
Morava com meu pai e um primo nos fundos de um bar, na Penha. Para um
adolescente, era “barra”, como se diz. O culto me alimentava por uma semana. E
era aguardado sempre com expectativa porque no próximo eu iria aprender sobre
Deus. Hoje, quando não prego e vou me congregar com irmãos de outra igreja,
sempre me aflijo: aonde vou? Gosto de ouvir falar de Jesus, gosto de ver a
Bíblia ensinada, e não tenho paciência com barulho. Fiquei um ano e oito sem
pastorear (por opção). Viajei muito. Em um ano e meio fiz sessenta viagens. Mas
quando estava em casa e precisava me congregar (não consigo ficar sem ir à
igreja prédio) me afligia. O que encontraria? Seria alimentado ou seria chamado
por um animador de auditório a me sacudir?
Gente como o Dom Livre e como Cristina Capareli estão rareando (eles são
jovens, diga-se). A música de qualidade está escasseando. O culto com início,
meio e fim, com uma mensagem progressiva, em que todas as partes caminham na
mesma direção também está sumindo. A pobreza cultural do mundo se reflete na
pobreza bíblica e teológica da igreja.
É, envelhecer é fogo. Mas ter senso analítico também. A gente nem sempre
aceita se banalizar. E nossos cultos estão se tornando tão banais! Quando não
puder mais pastorear, para onde irei?
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quinta-feira, 15 de novembro de 2012
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